terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Homem Caindo


A escolha dessa fotografia tem como objetivo tratar de dois temas: a mudez sobre alguns aspectos dos atentados e os limites do jornalista. Essa foto foi feita por Richard Drew, fotógrafo da Associated Press que naquela manhã de 11 de setembro cobria um desfile de moda para gestantes e assim que soube do que acontecia, foi para o World Trade Center. A foto do homem caindo foi publicada em alguns jornais dos EUA no dia 12, como o USA Today e pela revista Esquire. Esses veículos foram duramente criticados por publicarem a foto de uma pessoa pulando do prédio, foram acusados pelos próprios leitores de sensacionalismo e de explorarem a tragédia. A reação foi tamanha que a foto não foi mais utilizada pelos meios de comunicação norte-americanos. Porém na Internet é possível encontrar essa e outras fotos e até vídeos dos chamados jumpers.

Apesar do volume informação que se teve sobre os atentados as Torres Gêmeas e boa parte praticamente em tempo real ainda existem assuntos que são tratados como tabu e silenciados. Os jumpers estão entre eles. Não há uma estatística oficial sobre o número de pessoas que saltaram dos prédios. Alguns jornais fizeram sua própria contagem, o New York Times chegou ao número de 50 pessoas, baseado no que seus jornalistas viram e o USA Today fundamentado em testemunhas e em laudos forenses, divulgou a quantidade de 200 vítimas. É sabido também que um bombeiro morreu ao ser acertado por um corpo. As autoridades não contestam esses dados.

A foto chama atenção por retratar um momento de relativa serenidade em meio ao caos que acontecia e da própria tragédia da ação. Ainda há um componente estético da posição da pessoa que se mantém na vertical, suas roupas e sapatos ajustados ao corpo que divide exatamente os dois prédios: à esquerda Torre Norte e à direita, a Sul. É o clique exato. As outras fotos que se tem de jumpers mostram momentos de agonia, roupas saindo do corpo e pessoas que parecem nadar desesperadas no vazio. Estima-se que a queda durava aproximadamente 10 segundos.

Um jornalista canadense, Peter Cheney do Toronto Globe and Mail decidiu descobrir quem era a pessoa na foto e mapeou vários pontos de referência. Chegou a um conjunto de características: seria um homem negro ou latino, de cavanhaque, com uma túnica típica de funcionário de restaurante. Com essas informações, Cheney foi em busca do homem nos cartazes de desaparecidos afixados pelas famílias em torno das ruínas do World Trade Center na esperança de reencontrarem seus parentes.

Dessa forma ele chegou ao nome de Norberto Hernandez, um imigrante latino de 42 anos, pai de três filhas, casado há quase 30 anos e que trabalhava no Windows of the World, restaurante situado a cerca de sete andares de onde o avião colidiu. Cheney comunicou sobre a identificação para a família - que já estava em choque com perda repentina de Norberto. O choque foi grande para eles, pois dentro da sua formação religiosa e cultural aquilo era visto como suicídio, logo a alma daquele homem não teria descanso no paraíso. A filha mais nova de Norberto, então com 13 anos, passou a ter alucinações e pesadelos. A matéria foi publicada e teve grande repercussão.

Boa parte dos fotógrafos que cobriram os primeiros momentos dos atentados eram norte-americanos, o que dá outra dimensão a cobertura. Mesmo com a almejada imparcialidade jornalística não há como negar que o fato do próprio país ter sido alvo de atentados não influencie na produção e na divulgação de informação. Talvez o fato de Cheney ser canadense o distanciasse o suficiente da situação para motivá-lo nessa essa busca. Fica também a questão da ética do profissional e os limites da privacidade.

A polêmica sobre a identificação do homem caindo foi tamanha que o fotógrafo Drew mostrou a Cheney toda seqüência de fotos. Então foi possível ver a queda não foi toda tranqüila, o corpo gira no ar, a túnica branca sai e revela uma camisa laranja por baixo – foi esse novo dado que invalidou a suposta identificação. De acordo com os Hernandez, Norberto não possuía nenhuma peça dessa cor.

O jornalista ainda insistiu na busca e fechou seu campo de pesquisa entre os funcionários do Windows of the World até que o irmão de uma das vítimas se pronunciou e indicou que aquele talvez fosse Jonathan Briley de 43 anos. Contudo não existe uma identificação oficial para o personagem da foto. Tom Junod, repórter da Esquire escreveu longamente sobre a polêmica da foto e traz a reflexão de que a imagem não somente por quem é aquela pessoa, mas também porque nos leva a pensar em quem nós somos, no que faríamos em situação semelhante. Para ele a não identificação faz da fotografia uma espécie de túmulo ao soldado desconhecido.